Richard Stallman, considerado o verdadeiro pai do software livre, lista em seu artigo “O Perigo dos eBooks” algumas razões pelas quais os eBooks são um retrocesso em relação aos livros impressos
Em relação aos sete argumentos expostos por ele, contra o livro digital, gostaria de negá-los.
Primeiramente, eu ainda acredito que o desejo e a necessidade de posse por algumas coisas é exatamente o que nos impede de realmente aproveitá-las.
Os argumentos dele são:
1) “A Amazon exige que os usuários se identifiquem para obterem um livro..”
Mesmo que você entre em uma livraria física, dificilmente irá pagar com dinheiro, os cartões são onipresentes onde quer que você vá. E qual é a vantagem de “comprar anonimamente” dado como vantagem do livro impresso?
2) “Em alguns países, a Amazon afirma que o usuário não é o proprietário do livro.”
Você quer se apropriar da matéria da qual é feita o livro e não do seu conteúdo? Esse me parece um dos maiores pecados: querer comprar o conteúdo de um livro e não consumí-lo.
3) “A Amazon exige que o usuário aceite uma licença restritiva para utilizar o livro.”
A licença que restringe o uso de um livro impresso encontra-se na lei de direitos autorais e no código civil. Há muitos usos que você não pode dar.
4) “O formato do livro é secreto, e somente um software proprietário e restritivo para o usuário pode permitir sua leitura.”
Até onde sei você não precisa ser engenheiro mecânico para dirigir um carro. Dizer que o fato de você não conhecer a estrutura dos bits e bytes que compõem um livro vá fazer diferença para sua leitura não é apropriado.
5) “Um tipo de “empréstimo” é permitido para alguns livros, por um tempo limitado, e somente para usuários especificados pelo nome, que utilizem o mesmo leitor de ebooks. Doações e vendas não são permitidas.”
É preciso lembrar que o mercado de livro digital tem menos de cinco anos e ainda poucas empresas que comercializam neste formato, logo ainda há um bom caminho para ser percorrido, mas acredito que o mercado vá evoluir para atender a esse anseio, mesmo que de forma limitada.
6) “Copiar um ebook é impossível devido às restrições impostas pelo Gerenciamento de Restrições Digitais (DRM) no sistema e proibido pela licença concedida, o que é mais restritivo que a lei de copyright.”
Não gosto de argumentos hipotéticos. Na vida real, quantos livros impressos você já copiou (os da faculdade não contam)?
7) “A Amazon pode remotamente deletar o ebook do usuário utilizando um artifício de software que se encontra no ebook. Isso aconteceu em 2009 quando deletou milhares de copias do livro de George Orwell, 1984.”
Sim, é um bom argumento “a possibilidade de apagar”, visto que no caso concreto foi um problema de direitos autorais, algo parecido quando a justiça brasileira mandou recolher das lojas o livro impresso com a biografia do Roberto Carlos com a qual ele não havia concordado. De toda forma, após aquele caso, não tivemos outros problemas desses.
O Richard Stallman pode falar o que quiser, é o trabalho dele requerer essa liberdade, mas os argumentos parecem-me apenas para criar polêmica do que para realmente fazer pensar sobre o assunto.
Vinícius Gusmão
12 de agosto de 2011 at 9:31
Bom dia, Sérgio.
Parece-me que a compra anônima pode, em muitos casos, ser desejada. Pense em livros malditos e regimes autoritários, por exemplo, ou em leituras cujo conteúdo o leitor não gostaria de ver associado a sua pessoa por alguma razão: ideais revolucionários, religiões não-ortodoxas, coisas como “Traia sua mulher sem que ela jamais desconfie”, “Como assumir a homossexualidade no ambiente de trabalho”, livros do Paulo Coelho etc.
Sérgio S. Santos
13 de agosto de 2011 at 10:41
Vinícius, bom dia.
Obrigado pela contribuição com seu comentário. Concordo que há momentos em que a manutenção da privacidade será sim desejada, mas a regra geral (de não ter o anonimato) não causará dano para a maioria dos consumidores dos livros digitais. Alguns tipos de literatura, como as citadas por você, são difíceis de serem encontradas mesmo em algumas lojas físicas, então acredito que teremos lojas virtuais de literatura de nicho com regras mais flexíveis quanto a essas questões.
De toda forma, mesmo hoje já é possível fazer o cadastro em alguns sites com um nome qualquer, carregar sua conta pagando um boleto bancário e depois baixar os livros que você desejar, mantendo sua privacidade para lê-los.
Um grande abraço,
Sérgio S. Santos
Otto
21 de setembro de 2011 at 23:09
Alguns pontos parecem ser coisa de quem quer reclamar de tudo, mas não se pode negar: antes, ele tinha um direito e agora não tem mais.
É muito raro eu comprar coisas em dinheiro ao invés de usar cartão de crédito, mas se o Stallman ou qualquer outro fazia isso e não pode mais, então ele perdeu um direito e pode reclamar disso.
Porém, é muita ignorância e falta de visão de sua parte (sem querer ofender) contestar o ponto 4 da forma como o fez.
Na informática, bem como no carro usado em sua analogia, uma pessoa não precisa conhecer a fundo as coisas para usá-las, porém ele tira maior proveito se conhecer melhor o que usa. No caso da informática, precisa ser possível que a pessoa tire esse proveito, o que costuma ser impossível ou restrito em tecnologias proprietárias.
Mesmo que uma pessoa não tenha qualquer conhecimento técnico e nem queira ter, ela se beneficia se formatos abertos e softwares livres. Qualquer erro ou melhoria que alguém, em qualquer lugar do mundo, faça no Firefox ou Chrome, por exemplo, beneficiará os usuários desses navegadores. Vale pro Linux, usado no Android, no Kindle e muito provavelmente no seu blog.
Se o Kindle seguisse essa linha, nesse momento já leria epub e pdf muito bem. Programadores chineses desenvolveram num firmware alternativo ao original do Kindle que lê esses formatos. Ou seja, o hardware do Kindle pode fazer isso perfeitamente, mas por uma decisão da Amazon, você deve utilizar um formato obscuro deles. E, por ser fechado, não é possível fazer (quase) nada a respeito.
Quando um formato é propriedade de alguém, esse alguém manda nele. Se a Amazon quiser modificar o mobi para o Kindle 4, o Kindle 3 pode não ler mais e você é obrigado a comprar a nova versão. É o que acontece com os formatos do Office da Microsoft, que são problemáticos de serem lidos nas versões anteriores do programa. Num país como o nosso, que a maioria baixa pirata, isso pode não ter grande impacto para uma pessoa física, mas empresas ou pessoas de outros países têm que comprar a nova versão.
Outra coisa que pode acontecer é ter um formato proprietário e grátis e, em determinado momento, depois que tal formato se populariza e vira uma espécie de padrão da indústria, passar a cobrar pelo uso dele. Foi assim com o mp3, que pouca gente sabe que é pago e os custos estão embutidos no valor dos aparelhos que tocam mp3, jogos que usam mp3, músicas que se compra online etc.
Fora que se o mobi deixar de ser mantido, seja porque a Amazon faliu ou porque perdeu o interesse nele, como ficam os e-books nesse formato que você comprou? Se o melhor e-reader do momento for o XYZ e esse e-reader não ler o formato, o que fazer? Converter formatos sem acesso à especificação não é tarefa trivial.
Também não concordo com o que falou em outros pontos, como o 7. Os livros de Roberto Carlos foram recolhidos, mas quem comprou, comprou. Mas o que eu queria mesmo discutir era o 4.
Sobre o 5 eu concordo que há o que evoluir. A própria Amazon vendia mp3 com DRM para os EUA e hoje não vende mais com restrições. Coisas semelhantes podem acontecer com e-books.
Abraço.
O Sagrado Direito ao Conteúdo do eBook « Vento Digital
29 de novembro de 2011 at 23:04
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