“A Guerra dos Tronos” é o primeiro volume da série “As Crônicas de Gelo e Fogo”, escrita por George R.R. Martin. A coleção em inglês já está no quinto livro e aqui no Brasil temos até o volume 3. A série foi adaptada para a televisão pela HBO e inclusive já passou aqui no Brasil.
Resumindo: O livro é fantástico!
Virei fã do autor assim que consegui passar da página 30 do livro, o que confesso, foi bem difícil. Entre as muitas diferenças entre este livro e quase tudo que li antes, está o fato de que não existe bem e mal, não há vilões e mocinhos, não há misericórdia, não há predileção por personagens, não há concessões e falsos moralismos. A história é nua e crua. Há violência, crueldade, abuso sexual, tortura, traição, decepção e outras mazelas. Parece o jornal que lemos pela manhã ou o que assistimos à noite. Tudo extremamente crível e bem contado. Impossível ficar indiferente, embora muita gente possa ficar escandalizado com algumas coisas que são contadas, o que, inclusive, suscitou um post meu sobre Quem tem medo de escrever?.
Este não é um resumo do livro, até porque parece-me injusto colocar em poucas linhas toda a criatividade demostrada pelo autor, mas são comentários gerais sobre a obra. Vamos a eles.
História: como o próprio título da obra informa, trata-se de um livro de crônicas, uma narração histórica em ordem cronológica, no caso, muito bem orquestrada pelo autor para mostrar um período de transição nos Sete Reinos a que se refere. É um momento delicado, quando um longo inverno está prestes a começar e muitas alianças e pactos precisarão ser testados. O nome original deste volume em inglês “A Game of Thrones” seria mais adequado do que o que foi escolhido e no texto aparece várias vezes traduzido como “O Jogo dos Tronos”, como na frase de Cersei Lannister “Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre”. De toda forma, este trabalho é apenas um de sete títulos, então quando chegamos ao fim do livro, depois de 570 páginas, sabemos que ainda há muito por acontecer e o primeiro volume é quase como uma introdução a tudo que se seguirá.
Personagens: Arya, Bran, Catelyn, Daenerys, Eddard, Jon, Tyrion e Sansa. Cada capítulo do livro é sempre a história sendo contada pelo ponto de vista de cada um desses personagens, mas cuidado: não os ame demais, não se importe com eles em demasia nem confie em seus propósitos. Os personagens pertencem ao autor, e ele ama mais a história que os personagens, então não fique surpreso ou horrorizado com aquilo que vier a acontecer com cada um deles. A apresentação e introdução deles na história é feita de forma muito inteligente e várias vezes surpreendente. Aos poucos descobre-se os parentescos e as motivações de cada um deles. Quanto ao caráter…bem, são apenas humanos.
Cenários: Os cenários, bem como as ações e os sentimentos são descritos de forma quase poética, e mostra um cuidado muito grande em todas as ambientações e movimentos. Não é tão detalhada que não dê margem para nossa imaginação trabalhar, mas o ponto alto são algumas analogias criadas pelo autor, que dão uma dimensão especial para a narrativa.
Diálogos: outro ponto alto do texto do George R. R. Martin são seus diálogos, sempre muito inteligentes e cheios de ironia, sarcasmo, raiva, ceticismo ou humor, conforme o personagem ou a situação. Há muitas pérolas tanto nos diálogos quanto nas descrições contidas no livro. Você vai querer marcar várias passagens como suas favoritas.
Quem gosta de uma leitura cativante, com personagens sinceros e coerentes, ótimos cenários e um clima de suspense a inevitável vontade de sempre saber o que vem a seguir, irá ganhar muitas horas de entretenimento neste primeiro volume.
Dica de Leitura: comece lendo apenas os capítulos referentes a Daenerys. A história dela não interfere em nenhuma outra neste livro. Você vai conseguir se situar na história e se acostumar com o ritmo e com a forma do George R. R. Martin escrever, depois é só voltar ao começo e ler os outros personagens.
Para os fãs de “O Senhor dos Anéis”: não ofendam minha mãe, mas R. R. Martin supera em muito R. R. Tolkien. Embora a criação da Terra Média e do idioma élfico sejam monumentais, o primeiro, diferente de quase todos os outros escritores de fantasia pós-Tolkien, não usa elfos, anões nem magos para contar sua história. O mundo de fantasia de Martin é ainda mais rico, vivo e dinâmico que o de Tolkien, que deve levar o crédito sim por ter popularizado o gênero exatamente por tê-lo levado a sério, como o R. R. Martin também fez.
Bem, em breve começo a leitura do segundo volume “A Fúria dos Reis” e só posso esperar outra leitura de altíssimo nível como a do primeiro volume.
Um abraço a todos.